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sábado, 25 de janeiro de 2014

Moradora de Adustina conta história bem curiosa e interessante sobre o cangaço

francisca adustina
Francisca Maria de Jesus / Foto: Kiko Monteiro
“Eusébio, o guia”
Prosseguindo com nossas andanças pelas terras de Adustina/BA, conhecemos dona Francisca Maria de Jesus, 75 anos. Ela nos contou que certo dia o pai dela, Eusébio José Rodrigues, acompanhado do irmão Inácio e de um cunhado, iam participar de um “batalhão” (nome dado aos mutirões de plantio). Partiram os três em seus cavalos, quando passando pelo lugar chamado Alegres, foram surpreendidos por cangaceiros.
A abordagem foi pacífica. Um deles, provavelmente o chefe, perguntou se poderiam ceder as montarias para o grupo, pois tinham animais, mas sem arreios.

Seu Eusébio que não era doido de negar, disponibilizou os apetrechos dele e ordenou que os outros fizessem o mesmo. O cangaceiro perguntou se Eusébio poderia lhe servir de guia até um povoado que eles não sabiam como chegar, aceitou, mas pediu que liberassem os outros dois. Trato feito.
Montou na garupa do cangaceiro e a primeira parada foi na casa de Martins de Leandro. Chamaram, mas não havia ninguém na propriedade. Ai a calma dos “meninos” terminou. Ordenaram a Eusébio que ele derrubasse a porta à golpes de machado. E mesmo sabendo que ali era propriedade de gente amiga teve que atender, percebeu que a benevolência dos cabras tinha prazo de validade.
Porta abaixo em poucos minutos, os cabras invadiram e fizeram uma pilhagem na casa de Seu Martins.
A caravana seguiu em frente. Parada para almoço, o cangaceiro que parecia ser o chefe manda um dos cabras providenciar o fogo e saiu mata à dentro. Ao voltar encontra Eusébio afastado do grupo encostado numa árvore com semblante triste e o pergunta se estava com medo, mas Eusébio responde que estava era com muita fome, porque os cabras se fartaram e não lhe ofereceram nem um pedaço de carne. O suposto chefe ordena que encham um coité (cabaça) com comida e reclama porque não tinham repartido o almoço com o guia. Um cabra diz:
- Ora! Ele não se serviu porque não quis.
Seu Eusébio finalmente satisfeito e o cangaceiro pergunta se ele tinha algum vicio. Respondeu ele que fumava e prontamente ganhou um cigarro. No entanto, após o primeiro trago deu uma baforada bem no rosto do cangaceiro causando espanto dos demais cabras pela ousadia…
Mas a única advertência que recebeu era de que ele voltasse pra debaixo da árvore onde estava, permanecendo afastado dos grupo, porque iam dar mais um tempo pro descanso, e que tinham feito fumaça e se os macacos lhes botassem emboscada que ele não corresse de pé, mas rastejasse, senão morreria confundido com um deles.
Seguiram até o Baixão de Carrolina que é um povoado mais próximo à sede do município. Foram até uma casa, onde ganharam laranjas. Disseram a Eusébio que ficariam por ali. Antes de dispensa-lo ordenaram-no que recolhesse os animais… Mas que antes retirasse os alforjes dos cavalos e os colocasse nos animais do grupo já que alguns estavam montados à pelo. Eusébio mais uma vez atendeu a contragosto, e agora então, ao perceber que saia no prejuízo, perdendo os arreios novinhos?
Esse “passeio” durou praticamente o dia inteiro. No final da tarde, diante da sua demora, os amigos e parentes de Eusébio que o aguardavam nas matas para o “batalhão” já choravam sua morte. Segundo o senhor Gervásio, meu vizinho que conheceu Eusébio e me confirmou esta mesma narrativa de sua filha complementando-a com o episódio do almoço, lembra de outro detalhe, precisamente uma crença: – Os moradores só tinham um pensamento “Recompensa pra quem ajuda cangaceiro é surra ou a morte”… Por isso aflição contagiava até os que confiavam.
Mas com poucas horas seu Eusébio retornava são e salvo para a alegria de todos.
(Fonte: Kiko Monteiro / Blog Lampião Aceso)

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