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quinta-feira, 27 de março de 2014

Cangaço: Historiador conta a saga de Maria Bonita em Festival


maria bonita
Ano de 1929, município de Jeremoabo, Sertão da Bahia. Lampião era um caboclo alto, um tanto corcunda, cego do olho direito, óculos ao estilo professor, manco de um pé (baleado três anos antes), com moedas de ouro costuradas na roupa. Exalava mistura forte de perfume francês com suor acumulado de muitos dias. O cangaceiro podia até não preencher os requisitos de um bom partido, mas foi com esses atributos que conquistou a futura mulher, filha de casal com uma dezena de filhos.

Maria Gomes Oliveira tinha 18 anos quando subiu na garupa do cavalo de Virgulino Ferreira da Silva. Corpo bem feito, olhos e cabelos castanhos, um metro e cinquenta e seis de altura, testa vertical, nariz afilado. Era bonita, habilidosa na costura (assim como era Lampião) e adorava dançar. Foi o suficiente para Virgulino quebrar a tradição do cangaço e permitir o ingresso de uma mulher nos bandos, o que abriu precedente para várias outras.
O restante da trajetória daquela que viria a ser a primeira-dama do cangaço é contada pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello. A principal revelação, ele antecipa, é a origem do nome Maria Bonita. “Fiz essa descoberta por acaso, em 1983. Foi uma surpresa ver que esse nome de guerra não nasce no Sertão, mas no meio urbano do Rio de Janeiro, em 1937, por meio do uma ‘conspiração’ de jornalistas. E toma conta do Brasil repentinamente, caracterizando verdadeiro fenômeno de massa”.
Até então, a mulher de Lampião era chamada de Rainha do Cangaço, Maria de Dona Déa, Maria de Déa de Zé Felipe ou Maria do Capitão. O nome definitivo surgiu inspirado em um romance de 1914, Maria Bonita, de Júlio Afrânio Peixoto, adaptado para o cinema 23 anos depois. Vários repórteres chegaram ao consenso para padronizar a informação disseminada pelos jornais impressos.
Nos três primeiros anos, de 1929 a 1932, as mulheres do cangaço ficavam reclusas no Raso da Catarina, refúgio no nordeste da Bahia. Quando, enfim, foram autorizadas a acompanhar os bandos de cangaceiros, passaram a conviver com a elite sertaneja, esposas e filhas de coronéis poderosos.
“Disso resulta o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, além do aburguesamento de maneiras. A máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil – e logo, a filmadora alemã e a câmera fotográfica, pelas mãos do libanês Benjamin Abrahão – chegam ao centro da caatinga, amenizando os esconderijos mais seguros, levados pelos coiteiros”, destaca Frederico Pernambucano de Mello.
Canudos
A presença feminina em conflitos armados também é característica da Guerra de Canudos, de 1897. Somente nas forças do general Cláudio do Amaral Savaget, cujo efetivo era de 2,5 mil homens, havia cerca de 300 mulheres, que carregavam 80 crianças. Assunto presente no livro Guerra total de Canudos (Escrituras, 360 páginas, R$ 54,80), de Frederico Pernambucano de Mello.
(Fonte: Pernambuco.com)

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